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Terça-feira, 9 de Outubro de 2007

Pelo mundo das ideias

 

 Guerra Junqueiro, "Pátria", 1896

"Galo Verde"

Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e

sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de

vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a

energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as

moscas; um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem

onde está, nem para onde vai; um povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é

bom, e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que um lampejo

misterioso da alma nacional, reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa

morta. [...]

 

Uma burguesia, cívica e politicamente corrupta até à medula, não

descriminando já o bem do mal, sem palavras, sem vergonha, sem carácter,

havendo homens que, honrados na vida íntima, descambam na vida pública em

pantomineiros e sevandijas, capazes de toda a veniaga e toda a infâmia, da

mentira a falsificação, da violência ao roubo, donde provem que na política

portuguesa sucedam, entre a indiferença geral, escândalos monstruosos [...]

 

Um poder legislativo, esfregão de cozinha do executivo; este criado de

quarto do moderador; e este, finalmente, tornado absoluto pela abdicação

unânime do País. [...]

 

A justiça ao arbítrio da Política, torcendo-lhe a vara ao ponto de fazer

dela saca-rolhas;

 

Dois partidos [...] sem ideias, sem planos, sem convicções, incapazes, [...]

vivendo ambos do mesmo utilitarismo céptico e pervertido, análogos nas

palavras, idênticos nos actos, iguais um ao outro como duas metades do mesmo

zero, e não se malgando e fundindo, apesar disso, pela razão que alguém deu

no parlamento, de não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar..."






publicado por Yoga Leiria às 22:18

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